Ando por aí carregando esse corpo mortal.
Ando, falo, respiro… aos olhos de quem passa sou apenas mais um ser vivente atravessando as ruas da cidade.
Mas a verdade é que eu já morri faz tempo.
O que restou de mim foram cinzas ecoando nesse plano, sombras vestidas de carne tentando imitar a vida.
Vejo rostos.
Semblantes.
Sorrisos brilhando no olhar.
E me pergunto se isso realmente é viver.
Queria entender esse brilho que algumas pessoas carregam nos olhos, essa chama leve que parece aquecer o mundo ao redor. Mas quando olho para mim mesmo encontro apenas ruínas. Um silêncio frio. A certeza amarga de que existe algo morto dentro de mim.
Às vezes me sinto como um zumbi vagando pelas avenidas enquanto a cidade continua pulsando indiferente, pessoas correndo atrás de seus horários, de seus amores, de suas vidas pacatas… enquanto eu caminho entre elas como um fantasma preso entre dois mundos.
E então surge a dúvida:
Será que esses sorrisos são mesmo felicidade?
Ou apenas maquiagem cobrindo feridas que ninguém suporta mostrar?
Porque eu já vi pessoas caladas carregarem mais paz do que aquelas que sorriam o tempo inteiro.
Já vi olhos cansados esconderem universos inteiros de dor.
E isso sempre me pareceu tão contraditório… tão humano.
Tem gente que se joga na bebida tentando afogar os próprios fantasmas.
Outros procuram nas drogas uma fuga temporária dessa realidade sufocante.
E talvez, no fundo, todo mundo esteja procurando a mesma coisa:
Um lugar de refúgio.
Um abraço verdadeiro.
Um pouco de silêncio dentro do caos.
Um instante de paz onde a alma finalmente consiga descansar.
Mas me pergunto… mortos ainda sentem?
Porque às vezes eu já não sei distinguir o que é estar vivo e o que é apenas continuar existindo.
Quem olha para mim de fora acredita que ainda há vida aqui.
Mas só eu conheço o cemitério que carrego no peito.
Só eu escuto o eco das coisas que morreram dentro de mim.
Ainda assim… em meio aos escombros… existe algo resistindo.
Talvez uma fagulha.
Talvez um último suspiro da alma.
Porque mesmo morto, continuo caminhando.
E talvez isso signifique que, em algum lugar dentro dessa escuridão, eu esteja aprendendo a renascer.
Quem sabe um dia meus olhos voltem a carregar o brilho da vida outra vez.
Arthur salazar
