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Só eu conheço o cemitério que carrego no peito.

Foto do escritor: Arthur Salazar
Arthur Salazar
19 de jul.
3 min de leitura

Atualizado: 4 de ago.

Homem com cemitério no peito e texto poético melancólico.

Vago por aí carregando este corpo mortal.

Caminho, converso, respiro... para quem me vê, sou apenas mais um ser vivo.

atravessando as ruas da cidade, um labirinto de concreto e asfalto, onde cada esquina parece contar uma história diferente, um fragmento de vidas que se cruzam e se separam em um ritmo frenético. O cheiro de café fresco e pão quente se mistura ao aroma de chuva que cai suavemente, mas tudo isso parece distante, como se eu estivesse observando através de um vidro embaçado, incapaz de realmente tocar ou sentir.

Mas a verdade é que eu já morri faz tempo, uma morte silenciosa que não foi marcada por um único evento, mas por uma série de pequenas perdas que se acumularam, como folhas secas caindo de uma árvore até que não restasse mais nada. O que restou de mim foram cinzas ecoando nesse plano, sombras vestidas de carne tentando imitar a vida, tentando se encaixar em um mundo que continua a girar, indiferente ao meu estado de ser.

Vejo rostos ao meu redor, rostos que se iluminam com a luz do dia, semblantes que expressam uma gama de emoções que eu mal consigo compreender.

Sorrisos brilhando no olhar, sorrisos que parecem irradiar calor e esperança, e me pergunto se isso realmente é viver ou apenas uma fachada cuidadosamente construída.

Queria entender esse brilho que algumas pessoas carregam nos olhos, essa chama leve que parece aquecer o mundo ao redor, como se cada um deles fosse um sol em miniatura, iluminando a escuridão que me envolve. Mas quando olho para mim mesmo encontro apenas ruínas, um silêncio frio que ecoa em meu interior. A certeza amarga de que existe algo morto dentro de mim, um vazio que não pode ser preenchido por palavras ou gestos.

Às vezes me sinto como um zumbi vagando pelas avenidas, um espectro sem propósito, enquanto a cidade continua pulsando indiferente, pessoas correndo atrás de seus horários, de seus amores, de suas vidas pacatas, como se cada um estivesse em uma dança ensaiada que eu não conheço. Enquanto eu caminho entre elas como um fantasma preso entre dois mundos, observando, mas nunca realmente participando.

E então surge a dúvida, uma questão que me atormenta:

Será que esses sorrisos são mesmo felicidade, ou apenas maquiagem cobrindo feridas que ninguém suporta mostrar?

Porque eu já vi pessoas caladas carregarem mais paz do que aquelas que sorriam o tempo inteiro, suas almas em harmonia, mesmo em meio ao caos. Já vi olhos cansados esconderem universos inteiros de dor, histórias não contadas que pesam mais do que qualquer palavra poderia expressar.

E isso sempre me pareceu tão contraditório… tão humano, como se a verdadeira essência da vida estivesse escondida nas nuances da tristeza e da alegria. Tem gente que se joga na bebida tentando afogar os próprios fantasmas, buscando um alívio temporário que nunca chega. Outros procuram nas drogas uma fuga temporária dessa realidade sufocante, um escape que acaba se tornando uma prisão.

E talvez, no fundo, todo mundo esteja procurando a mesma coisa:

Um lugar de refúgio, um abrigo seguro onde possam se esconder das tempestades que rugem dentro de si. Um abraço verdadeiro, aquele que cura e reconforta, que faz a alma se sentir em casa. Um pouco de silêncio dentro do caos, um espaço para respirar e refletir. Um instante de paz onde a alma finalmente consiga descansar, longe das exigências e pressões do mundo.

Mas me pergunto… mortos ainda sentem?

Porque às vezes eu já não sei distinguir o que é estar vivo e o que é apenas continuar existindo, como uma sombra que passa sem deixar rastro. Quem olha para mim de fora acredita que ainda há vida aqui, um corpo que caminha, mas só eu conheço o cemitério que carrego no peito, as memórias enterradas que me assombram.

Só eu escuto o eco das coisas que morreram dentro de mim, os sonhos que se desvaneceram, as esperanças que se perderam no tempo. Ainda assim… em meio aos escombros… existe algo resistindo, uma centelha que se recusa a se apagar.

Talvez uma fagulha, um vestígio do que um dia fui.

Talvez um último suspiro da alma, um desejo profundo de renascer e redescobrir o que significa viver plenamente. Porque mesmo morto, continuo caminhando, um viajante em busca de sentido.

E talvez isso signifique que, em algum lugar dentro dessa escuridão, eu esteja aprendendo a renascer, a me reerguer das cinzas e a encontrar um novo propósito.

Quem sabe um dia meus olhos voltem a carregar o brilho da vida outra vez, e eu possa finalmente me sentir inteiro, não mais um espectro, mas uma pessoa viva, cheia de sonhos e esperanças.



Arthur Salazar

 

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